#M15 • 17/03/2026
MARKETING EM 15 MINUTOS
Um review analítico semanal dos principais estudos, relatórios, notícias e artigos acadêmicos de marketing.
Nessa semana viralizou o caso da Anthropic, que teria operado sua área de marketing por cerca de 10 meses com apenas uma pessoa, apoiada por automações e ferramentas de inteligência artificial. Na mesma semana dois estudos mostram que esse realmente será o foco do marketing para 2026.
A questão, porém, é se essa mudança tecnológica altera de fato a forma de liderar o marketing dentro das empresas. A resposta, segundo os próprios executivos, parece ser mais cautelosa: a maioria dos CMOs não acredita que precisa mudar a maneira como trabalha e nós concordamos com isto.
PARCEIRO EM DESTAQUE #M15

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RELATÓRIOS.
100% das lideranças dizem que times de marketing terão que entender métricas financeiras em 2026
O novo relatório Marketing Shots, realizado pela Faster em parceria com a HubSpot, entrevistou mais de 45 líderes de marketing no Brasil para entender o foco da liderança para 2026.
A buzzword que aparece com mais força é orquestração. Para muitos líderes, 2026 será o ano em que a inteligência artificial deixa de ser usada apenas para gerar mais volume e passa a ser integrada à operação de marketing — conectando dados, mídia, CRM e criação em sistemas mais coordenados de crescimento.
Ao mesmo tempo, o estudo mostra uma mudança ainda mais estrutural na forma como o marketing será cobrado dentro das empresas. O sinal é claro: marketing passa a ser medido menos por campanhas e mais por impacto financeiro no crescimento da empresa, justamente o que propunha o conceito original de orquestração de marketing, lançado em 2013.
#︎ Reorganize seu sistema de mensuração para considerar as cadeias de efeito até impacto econômico real.
FASTER; HUBSPOT. Marketing Shots 2026: as apostas de quem lidera o marketing no Brasil. Disponível em: https://lps.fstr.co/mkt-shots?utm_source=m15&utm_medium=email&utm_campaign=20_02&utm_content=mkt_shots_2026 Acesso em: 13 mar. 2026.

Apenas 15% dos CEOs acreditam que seus CMOs possuem hoje a fluência em IA necessária para liderar marketing em 2026.
Enquanto isso, um estudo da Gartner mostrou que globalmente as prioridades são um pouco diferentes. A consultoria ouviu 400 profissionais de marketing para entender onde ocorrerão as principais mudanças nos próximos dois anos.
O relatório revela uma tensão importante em relação ao papel da liderança. Embora 65% dos CMOs acreditem que a IA irá mudar drasticamente a função nos próximos dois anos, apenas 32% acreditam que o perfil e as habilidades do próprio CMO precisarão mudar significativamente.
Essa diferença revela um padrão curioso: muitos executivos projetam a transformação da IA para os times, processos e parceiros, mas menos para sua própria evolução profissional.
Do ponto de vista do C-suite, essa lacuna já aparece na percepção dos CEOs. Segundo o mesmo relatório, apenas 15% dos CEOs acreditam que seus CMOs possuem hoje a fluência em IA necessária para liderar marketing em 2026.
#︎ Quais novas competências o líder de marketing precisa? Martech Stack, Mensuração e Estatística com certeza são temas críticos.
GARTNER. CMOs: Build Your AI Literacy to Enhance C-Suite Credibility. Stamford: Gartner, 2026. Disponível em: https://www.gartner.com/en/marketing/insights/cmos-build-ai-literacy-csuite-credibility/unlocked. Acesso em: 14 mar. 2026.
NOTÍCIAS.
# TikTok lança rádio com podcasts
Plataforma passa a distribuir podcasts e programas de áudio →
# LinkedIn atualiza algoritmo
Rede afirma que novo feed prioriza conhecimento profissional e reduz posts virais sem relação com trabalho →
# Reels clicáveis viram trend
Criadores começam a usar novo recurso estilo youtube →
# Instagram testa links no texto
Por enquanto apenas para alguns usuários pagos →
# Shopify vai lançar integração com ChatGPT
Empresa anuncia “agentic storefronts”, permitindo que produtos sejam comprados diretamente via IA →
# Substack lança recurso de gravação
Ferramenta integrada indica estratégia de transformar newsletters em plataformas multimídia →
CHARGE.

MARKETING SCIENCE
O CMO realmente mudou ou estamos só repetindo o mesmo discurso?
Nos últimos anos tornou-se quase obrigatório começar qualquer palestra de marketing com a mesma frase: “o papel do CMO mudou completamente.”
Segundo essa narrativa, a tecnologia teria tornado o cargo tão complexo que os profissionais atuais simplesmente não estariam preparados para ocupá-lo.
É um argumento conveniente. Afinal, existe de fato uma revolução tecnológica acontecendo e há um mercado inteiro interessado em vender treinamentos, plataformas e frameworks para “reinventar” o marketing.
Mas a pergunta importante permanece: será que o papel da liderança realmente mudou? Muitos líderes parecem achar que não. No levantamento recente da Gartner, 68% dos CMOs afirmaram que as competências fundamentais de liderança permanecem praticamente as mesmas. Mesmo com mudanças operacionais no marketing, tendemos a concordar com essa visão.
E ao olhar para a literatura acadêmica, encontramos um diagnóstico ainda mais interessante e um pouco mais incômodo. O verdadeiro problema talvez não seja que o CMO mudou. O problema é que o cargo de CMO continua estruturalmente frágil dentro das empresas.
E esse tipo de discurso revolucionário pode acabar atrapalhando mais do que ajudando.
O que de fato é um CMO?
Usamos o termo CMO de forma relativamente livre para representar o principal responsável por marketing dentro da empresa. Tecnicamente, isso não é totalmente correto, mas é uma escolha editorial defensável.
Isso porque apenas cerca de 40% dos líderes máximos de marketing utilizam formalmente o título de CMO (Spencer Stuart, 2025). Os demais aparecem sob nomes diferentes: Chief Growth Officer, Chief Revenue Officer, Chief Commercial Officer, entre outros.
Por isso, usamos uma definição simples. Você é um CMO se:
é o decisor máximo de marketing na empresa;
reporta diretamente ao CEO ou board;
coordena os líderes das equipes de marketing;
participa das decisões estratégicas da empresa;
Esse último ponto é o mais importante.
Se você não participa de decisões como preço, produto ou estratégia de mercado, então provavelmente não está ocupando um cargo de C-level de verdade.
Essa distinção já aparecia em estudos clássicos sobre a função de marketing nas organizações, que mostram que o poder real do marketing depende da sua integração no processo estratégico da empresa (PIERCY, 1986).
Todas as empresas têm CMOs?
Aqui a história começa a ficar um pouco mais complicada. Mesmo entre as maiores empresas do mundo, ter um CMO não é exatamente a norma.
Uma análise das empresas da Fortune 500 indica que apenas cerca de 66% possuem um executivo de marketing no nível C-level (Spencer Stuart, 2025).
Ou seja: em mais de um terço das maiores empresas do mundo, não existe um líder de marketing participando diretamente da estratégia corporativa.
Quando ampliamos o olhar para o conjunto de empresas listadas em bolsa Americana, o número fica ainda menor. Um estudo de Koo e Lee (2018) mostrou que apenas 29% das empresas públicas possuem um CMO formal no top management team,
Em outras palavras, o cargo que supostamente estaria “mudando radicalmente”, ainda sequer existe na maioria das empresas. Nosso discurso deveria ser “toda empresa precisa de um CMO”…
Qual o efeito de um CMO?
A pergunta óbvia então é: faz diferença ter um CMO? A literatura sugere que sim.
Um dos estudos mais citados sobre o tema analisou 155 empresas de capital aberto ao longo de 12 anos para avaliar o impacto da presença de um CMO no desempenho corporativo.
O resultado foi claro: empresas que possuem um executivo de marketing no nível C-level apresentam aproximadamente 15% mais valor financeiro, medido pelo Tobin’s Q, indicador que compara o valor de mercado da empresa com o valor de reposição de seus ativos (BOYD; CHANDY; CUNHA JR., 2010).
Outros estudos chegam a conclusões semelhantes.
Há ainda evidências mais diretas ligadas ao retorno para investidores.
Em uma análise de empresas listadas nos Estados Unidos, Koo e Lee (2018) mostram que quando o marketing possui liderança forte no topo da organização — especialmente quando o CMO participa do top management team — há um impacto estatisticamente significativo no Total Shareholder Return (TSR).
Os coeficientes estimados no estudo indicam efeitos positivos relevantes:
β = 8,61 para liderança de marketing associada ao desempenho acionário.
β = 9,52 quando o CMO faz parte do time executivo de topo.
Traduzindo o economês acadêmico: quanto mais o marketing participa das decisões estratégicas, maior tende a ser o retorno entregue aos acionistas.
O verdadeiro problema do CMO
Aqui está a ironia. Enquanto nós, líderes de marketing, o CMO precisa aprender prompt engineering, automação ou data science, a literatura acadêmica aponta um problema bem mais básico: o cargo ainda luta para existir dentro das empresas.
O debate sobre “novas habilidades” pode até ser relevante. Mas ele ignora uma questão estrutural muito mais antiga: O marketing frequentemente não possui poder real na governança corporativa.
Talvez, esse discurso de que o cargo do CMO mudou, antes precisamos defender que toda empresa tenha um CMO.
SPENCER STUART. CMO Tenure Study 2025: The Evolution of Marketing Leadership. Chicago: Spencer Stuart, 2025. Disponível em: https://www.spencerstuart.com/research-and-insight/cmo-tenure-study-2025-the-evolution-of-marketing-leadership. Acesso em: 16 mar. 2026.
BOYD, D. Eric; CHANDY, Rajesh K.; CUNHA JR., Marcus. When Do Chief Marketing Officers Affect Firm Value? Journal of Marketing Research, v. 47, p. 1162–1176, 2010.
GERMANN, Frank; EBBES, Peter; GREWAL, Rajdeep. The Chief Marketing Officer Matters! Journal of Marketing, v. 79, n. 3, p. 1–22, 2015. https://doi.org/10.1509/jm.14.0244
KOO, David S.; LEE, Dongyoung. Influential Chief Marketing Officers and Management Revenue Forecasts. The Accounting Review, v. 93, n. 4, p. 253–281, 2018. https://doi.org/10.2308/accr-51946
PIERCY, Nigel. The role and function of the chief marketing executive and the marketing department: A study of medium-sized companies in the UK. Journal of Marketing Management, v. 1, n. 3, p. 265–289, 1986. https://doi.org/10.1080/0267257X.1986.9963990
EBBES, Peter; GERMANN, Frank; GREWAL, Rajdeep. Getting the Board on Board: Marketing Department Power and Board Interlocks. Journal of Marketing Research, v. 62, n. 1, p. 1–21, 2025. DOI: https://doi.org/10.1177/00222437241272180.
HOMBURG, Christian; VOMBERG, Arnd; ENKE, Margit; GRIMM, Philipp H. The loss of the marketing department’s influence: is it really happening? And why worry? Journal of the Academy of Marketing Science, v. 43, n. 1, p. 1–13, 2015. DOI: https://doi.org/10.1007/s11747-014-0416-3
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